Personagens e Jogadores.

“Penso logo existo!”.

Partindo deste principio básico da filosofia, podemos afirmar que o Personagem é um ser diferente do Jogador?
De uma Certa maneira sim!
Pois o Personagem pensa e tem objetivos que são diferentes dos objetivos do jogador.

“Mas como?”
“Como que um ser que não existe, a não ser na imaginação do jogador pode ser um ser independente de seu criador?”

Para começar vamos esclarecer que não é meu objetivo fundir os neurônios de ninguém, não estamos no “Mundo de Sophia”. Só quero demonstrar que os objetivos de Personagens e Jogadores são basicamente diferentes.

Primeiro, qual o objetivo básico de Quem Joga RPG?
– Se divertir!

Mas existem maneiras diferentes de se divertir jogando RPG.
– Existem os que gostam de matar monstros.
– Os que gostam de explorar masmorras, Reinos, cidades.
– Os que gostam de Desafios.
– Os que gostam de contar histórias.
– Os que só querem relaxar e se divertir com os amigos.
– Os que querem desenvolver seus personagens.
– Os que querem apenas bagunçar (E porquê não?).

Enfim os meios pelos quais o jogador irá jogar RPG são vários e só serão aparentes após um bom tempo de jogo juntos.

É necessário que o mestre comece a pensar um pouco nos jogadores e ir percebendo do que cada um gosta.

“Mas como?”
Simples, temos basicamente dois métodos: a pergunta direta e a observação.

– Pergunta direta.
Pergunte a seus jogadores do que cada um gosta em uma partida de RPG.
Ao meu ver é um método pouco eficiente, pois muitas vezes os próprios jogadores nunca param para pensar sobre isso e talvez não tenham uma resposta. Ou talvez ele se sinta inibido a falar sobre o assunto.
Mas em todo caso, em especial no caso de um membro novo ou grupo novo, é a maneira mais fácil de começar.
Às vezes o mestre pode inclusive chamar os jogadores em particular depois de uma partida ou nos intervalos entre uma sessão e outra para conversar sobre a campanha e também sobre o seu objetivo e os objetivos de sue personagem em especifico, isto geralmente ajuda muito o mestre a desenvolver a campanha e a ajudar o jogador a desenvolver o personagem. Vale a pena.

– Observação.
Comece a observar o que prende a atenção de cada jogador, o que faz com que ele se concentre mais no jogo, em quais momentos ele participa mais e em quais ele fica olhando para o teto, folheando o livro/revista, conversando com outro jogador.

Agora alguns exemplos mais práticos.
– Em encontros que envolvem luta o jogador, simplesmente joga o dado e diz o resultado, ou ele descreve com atenção cada um dos movimentos de seu personagem?
– Em uma batalha ele fica de canto e espera que os combatentes terminem a batalha o mais rápido possível?
– Ele tenta descobrir novos usos para uma magia antiga, sempre perguntando ao mestre se ele pode tentar um resultado novo com uma magia antiga, ou magia para ele é sinônimo de Bola-de-Fogo?
– Seu jogador escreveu um Background de mais de cinco linhas, com mais de 30, não escreveu nada?
– Seu jogador já te pediu algo especial para seu personagem? O que? Um item mágico? Jogar com um Lobisomem-Meio-Demônio? Ser Filho de um Rei? Ter um Inimigo Especial ou uma namorada?
– Durante os Encontros e descrições, o jogador presta atenção em tudo e faz perguntas, não dá importância, fica procurando uma brecha sua para fazer uma piadinha e zoar com o NPC.
– O Jogador tem a capacidade de desvirtuar um encontro que o mestre podia jurar que terminaria em briga, propondo um acordo com os inimigos, ou pior enganando eles?
– O Contrário, o jogador tem a capacidade de tornar um encontro com um grupo de franciscanos ou budistas em um combate sangrento.
– O Se o Mestre fosse fazer uma ficha do jogador baseado nas interpretações dele seus talentos seriam foco em diplomacia, sentir motivação e blefar?
– O Jogador vai para a sessão de jogo armado com uma calculadora? Um Bloco de notas? Uma revista para passar o tempo? Ou simplesmente não leva nada e ainda chega atrasado?
– O Jogador gasta mais tempo falando do que jogando dados? Mais tempo conversando com NPC do que batendo nele?

Estas são algumas dicas gerais para o mestre se basear, quando procurar descobrir qual é o estilo de cada um de seus jogadores e do que eles gostam.

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Agora que falamos sobre os jogadores vamos nos focar nos personagens…

Por que dizer que o objetivo dos Jogadores é diferente dos personagens?

Exemplos:
– Gord é um veterano de guerra que serviu ao antigo rei, o antigo rei foi deposto e assassinado após um golpe de estado, vendo a situação de seu reino mudar para pior, Gord decide se juntar às forças rebeldes para livrarem seu reino da opressão de seu novo governante.
– Mark é um jovem guerreiro com o objetivo de fundar um grupo de mercenários, atualmente ele trabalha para um grupo de rebeldes que tenta reassumir o controle de seu reino. 

O Que eles tem em comum?
Os dois personagens têm jogadores que gostam de combate tático e com foco em interpretação. Sendo a diferença apenas a abordagem utilizada por cada jogador, mas o objetivo é o mesmo “Bater com muito estilo”.
O Objetivo dos dois jogadores é se divertir enfrentando os oponentes em combate corpo a corpo.
O Objetivo do Personagem Gord é restaurar a paz em seu reino.
O objetivo do Personagem C-Jay, é adquirir fama e experiência para formar seu grupo de mercenários.
Fim do exemplo (Por enquanto).

Como descobrir o objetivo de um Personagem?
– Novamente temos a opção da pergunta direta. O mestre geralmente faz algumas perguntas sobre o personagem durante a sua criação.
– Temos os questionários que muitos mestres apresentam para que seus jogadores preencham, sobre as motivações e históricos do Personagem. (grandes exemplos destes “Questionários” são utilizados na linha Daemon e no Ravenloft 3ed).

Mais uma vez temos o método da observação:

– Durante a campanha os esforços do personagem são voltados para que sentido? O Que ele faz com maior freqüência?
– Como ele se comporta na hora de tomar uma decisão?
– Ele geralmente age junto com o grupo ou tenta um rumo diferente? Por quê?
– Qual a religião do personagem? E o que ela prega? Porque ele a segue?
– Ele pertence à mesma cultura dos demais de sua campanha ou não? Por quê? As diferenças são muito grandes?
– Com quais grupos ou classes o personagem interage mais? Com os Fanfarrões de taverna? Com membros do submundo? Com a aristocracia e realeza? Com Sábio, magos ou clérigos? Com membros do exercito? Com o excluídos e menos favorecidos? Ninguém? (Tente descobrir o porque deste tipo de afinidade).

Um mestre esperto pode até mesmo fazer estas perguntas diretamente sem que o Jogador perceba, tipo em uma conversa dos personagens com um ou mais NPC em volta de uma fogueira no acampamento, coisas do tipo.
Em geral um personagem simples terá um único objetivo a longo ou médio prazo. Que pode ser complicado ou simples dependendo basicamente do mestre.
Algumas vezes os personagens podem ter vários pequenos objetivos ou tenham de cumprir vários outros para atingir o seu objetivo principal. Novamente ele pode ser longo ou curto depende do mestre.

Retornando ao nosso exemplo:
– O Objetivo de Gord é simplesmente destronar o atual governante e instituir a paz (Não que isso seja fácil).
– Já o objetivo do Mark é Montar seu grupo de mercenários (bem menos pretensioso do que salvar um reino), mas para isso ele precisa de fama experiência, um local adequado, recrutar os mercenários e no meio disto esta um grupo de rebeldes que o contratou para ajudar a derrubar o tal governante.

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Bom agora que já trabalhamos os aspectos básicos do conceito Jogador <> Personagem, vamos falar sobre um item essencial para esta analise: A Ficha do Personagem.

O que pode ser aprendido da ficha de personagem?
R: Basicamente tudo.

Este ponto foi deixado por ultimo propositalmente, pois fornece tanto informações a respeito das intenções do Jogador, quanto às intenções do personagem.
Em alguns casos pode ser que o jogador não dê importância para a ficha de personagem, os motivos podem ser vários do tipo: ela só serve para os dados de combate, ou o histórico do personagem já diz tudo que é necessário, o jogador não sabe montar a ficha, o jogador está jogando com um personagem pronto ou que não foi ele que fez, o jogador é preguiçoso pra caralho.
Mas para nossa analise vamos partir do pressuposto que todos os jogadores tenham se dedicado um pouco com o preenchimento de sua ficha.
Uma vez que a ficha diz respeito à mecânica do jogo/sistema utilizado podemos sim tirar muito proveito das informações ali contidas.

Bom por menores à parte, vamos ao X da questão:

Você como mestre já chegou a olhar a ficha de um personagem alem de conferir os números para ver se ele estava roubando?
Já pensou em descobrir do que eles Personagem e jogadores querem ou pretendem analisando sua ficha?
Se a resposta for não então sinto dizer, mas você é um mestre desleixado com seus jogadores.
Na ficha um Jogador irá colocar aspectos que o satisfarão no quesito diversão e irá colocar também aspectos que atinjam os objetivos do seu personagem.
Um jogador que goste de Combates irá criar um personagem combativo na maioria das vezes. Um Jogador que goste de subterfúgio um ladino ou ranger. Um Jogador que goste de intrigas arriscaria um ladrão, um bardo ou um mago. Um Jogador que goste de ocultismo ou misticismo com certeza ira pegar um conjurador. Um Jogador que goste de interpretar irá pegar praticamente qualquer classe, pois todas dão espaço para uma boa interpretação.

Novamente temos aspectos menores que podem revelar mais sobre o jogador.
Por exemplo, quais os seus atributos, suas qualidades, suas habilidades e suas perícias, companheiro animal, familiar, aliados.

Por exemplo:
– um ladino com valores altos em Destreza, força e constituição indica que o jogador tem pretensão de entrar em combates com freqüência.
– Um ladino com Destreza e inteligência alta e com valores altos em procurar e desarmar armadilhas e decifrar escritas indica um jogador que gosta de desafios e superar enigmas.
– Um ladino com valores altos em Carisma e inteligência e com valores altos em Blefar, Sentir motivação, diplomacia, e furtividade, indica um jogador que dá valor à intriga, manipulação e talvez subterfúgios.

Neste aspecto podemos destacar também equipamentos:
– O Personagem leva o que para a viagem, seu cavalo suas armas e armadura? Ele leva corda? Leva comida? Leva saco de dormir, levam um monte de coisas inclusive panelas de ferro?
Se um jogador escolhe um item é porque ele tem pretensão de que seu personagem utilize ou que possa estar a mão caso precise.

Sobre pretensões do personagem o que a ficha pode nos dizer.

Neste ponto os aspectos menores chagam a ser mais relevantes do que os principais.
– Por exemplo, um Guerreiro grandalhão (Força alta) o bondoso (Tendência boa carisma e sabedoria altos ou médios) podem revelar que ele seja apesar da força um pouco pacifista e que assume um lado paternalista em relação ao grupo, mas dificilmente é possível deduzir que ele esteja procurando sua irmã perdida apenas com estes fatores.

Já um jogador que tenha uma perícia que não seja muito comum para sua classe pode revelar algo a mais sobre a pretensão de um jogador.
Por exemplo, um Ladino explorador de masmorras que tenha um bom Conhecimento de Religião pode ser um ladino especialista em roubar templos antigos ou estar procurando por algo mais especifico…

Alguns jogos fora da esfera D&D tem um cuidado maior em colocar os objetivos do Personagem dentro de estatísticas de jogo, como por exemplo o “Voto” ou “Fantasia” do GURPS, ou citando outro exemplo alguns Aprimoramentos do Daemon, como “Mestre”, “contatos”, “Biblioteca”, etc são maneiras de expressar pela fica os objetivos ou pretensões do Personagem.

A Chave é o mestre pensar nos “Porquês”.
– Porque um Guerreiro escolheu um talento que não é voltado para combate?
– Por que ele tem aquela perícia que não é comum a seu grupo?
– Por que ele tem talento liderança?
– Por que escolheu esta magia em especifico?
– Por que escolheu esta divindade?

Muitas vezes o jogador pode julgar que tal habilidade, perícia, ou equipamento pode ser útil para que o personagem cumpra seu objetivo.

Novamente até mesmo os equipamentos podem dizer algo sobre o objetivo do personagem também?
Exemplo: Por que este tal Aragorn carrega uma espada quebrada junto com ele?
– porque aquele pistoleiro anda para baixo e para cima carregando um caixão?

Às vezes um item pode identificar um objetivo a ser cumprido, uma mania, uma especialidade.

OBS: na dúvida dê uma de descarado e pergunte ao jogador o “porque” de algo que não esteja muito claro para você.

Concluindo:
Você Mestre sabendo diferenciar objetivos dos Jogadores e dos Personagens terá mais ferramentas para proporcionar mais diversão para seu grupo de jogo.

Agora como utilizar estas informações para este propósito é com você!

 

PS: Isto porque tratamos apenas de objetivos diferentes imagine se fossemos falar sobre Crenças, Culturas e Convicções (Boa idéia esta, vamos trabalhar em cima disto…).

PPS: Vida Longa aos Textos Longos

  1. Woodstock disse:

    Gun, dei continuidade naquele meme. Obrigado pela lembrança.

  2. Homo Sapiens disse:

    Fala parcêro! Arvedui lá da Spell. Parabéns pelo ótimo blog, tu acabas de ganhar mais um leitor!

    E vida longa aos textos longos… quase não termino de ler esse!^^

  3. Gun Hazard disse:

    Arvedui desculpe a demora em responder…

    Primero seja bem vindo.

    Se quiser fazer divulgação do grupo de tradução aquí fique a vontade…